Embora sempre tenha gostado das séries de artigos sobre “Jogos do Ano” que as publicações fazem no final de um ano ou no inicio do outro, não gosto da terminologia.
Declarar que um jogo é “o jogo do ano” implica que joguei todos os outros. Uma tarefa impossível nos dias que correm.
Assim, adotando a estratégia famosa da Carsberg, decidi fazer uma série de artigos sobre os meus cinco jogos favoritos do ano que passou – provavelmente os melhores jogos do ano.
E o número 5 é…
The Beginner’s Guide
Esta foi a decisão mais difícil de fazer. Tinha muita vontade de declarar o UnderTale como o meu quinto favorito – mas o “The Beginner’s Guide” ganhou-lhe por uma unha.
Este jogo surpreendeu-me porque é obra de Davey Wreden, criador do jogo “The Stanley Parable” (TSP), jogo que eu odiei.
TSP foi um dos poucos jogos que me arrependi de comprar e jogar; achei-o incrivelmente aborrecido, um desperdício de tempo e de dinheiro, e manifestei a minha opinião várias vezes no ene3cast.
Aqui não é o lugar para reiterar as minhas críticas, mas de forma resumida, incomodou-me que o jogo girasse em torno da satirização de um principio dos vídeo jogos de que ele próprio é culpado.
Nem me lembro, então, do que me possuiu para comprar o novo jogo do mesmo autor. Mas ainda bem que o fiz.
Tal como TSP, “The Beginner’s Guide” (TBG) é uma aventura narrativa, isto é, o jogador faz pouco mais do que navegar pelo mundo, ouvindo um narrador e interagindo ocasionalmente com o cenário para fazer avançar a história.
A grande diferença é que TBG não tenta fazer humor; de facto, começa em tom de documentário, documentando as raízes de um criador de jogos independentes.

Fiquei apaixonado logo nos primeiros minutos, durante os quais navegava um mapa rudimentar de Counter Strike enquanto o narrador me apresentava alguns detalhes iniciais acerca do dito criador, “Coda”.
Sempre gostei de ver documentários sobre vídeo jogos, mas com isto o Davey Wreden chocou-me com uma daquelas revelações raras, que parecem obvias após as ter mas que precisam de ser catalizadas por algum comentário ou obra: “É isto que um documentário sobre vídeo jogos deve ser!” pensei eu. “Um documentário sobre jogos e quem os cria só pode ser completo se for jogável, interativo!”
Tenho uma apreciação enorme por qualquer media – jogos, livros, filmes, o que for – que me leve a ter estas revelações, que me dê uma nova perspectiva e torne o meu cérebro capaz de ver a realidade de uma forma diferente – como se diz em coaching: uma “mudança de paradigma”.
Assim, não fiquei muito chateado quando percebi, alguns níveis depois, que este não era na realidade um documentário. Era mesmo uma história, uma narrativa (apresentada como verídica, mas aberta a interpretação). Eu já tinha tido a minha mudança de paradigma, o resto foi um bónus.
Mas um grande bónus. A maturação de Wreden como contador de história revela-se sublime.
Se TSP cometeu o pecado de gozar com o jogador por este fazer coisas a que o próprio jogo o determinava, TBG tem momentos em que parece adivinhar o que o jogador está a pensar. Em certas ocasiões, senti uma cumplicidade entre mim e o narrador. Uma ocorrência rara fora do mundo dos livros.

É difícil – e sei que aqui, é uma falha do meu talento, não um problema do jogo – escrever sobre este jogo sem lhe retirar o propósito. Afinal de contas, a história que ele conta, e a forma como envolve o jogador nessa história, é tudo. Cada frase que eu escreva a descrevê-lo é menos um segredo, menos uma pulsação narrativa que o jogador vai descobrir por si só.
Portanto, vou terminar a dizer apenas duas coisas: que este jogo reacendeu a minha paixão pelas aventuras narrativas, por esses jogos em que se faz pouco mais do que avançar por um cenário apreciando a narração.
E que este jogo é obrigatório para qualquer pessoa que goste de uma boa história sobre pessoas, que goste de descobrir as riquezas e estranhezas que existem no âmago de cada ser humano.
Bem jogado, Davey Wreden. Perdoo-te o The Stanley Parable.